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terça-feira, 5 de agosto de 2025

A música e as lendas da gaita de Gilberto Monteiro, destaque do nativismo

Figura seminal da gaita gaúcha, Gilberto Monteiro encontra a nova geração em lançamento de single/ EVANDRO OLIVEIRA/JC



Uma aura de mistério e encantamento precede Gilberto Monteiro. Lendas que circulam de boca em boca no meio nativista, como a de que o gaiteiro teria jogado no rio o seu primeiro disco, acompanham sua trajetória, há mais de cinco décadas.
 
Compõe sua efígie aquela fotografia em alto contraste, onde um vulto preto de barba cerrada veste um chapéu aprumado pra frente, com a gaita-ponto de fole aberto no peito. Imagem que é emoldurada com marrom na capa do LP Pra ti guria, de 1987, um dos maiores clássicos da música instrumental gaúcha.
 
Por isso, um frisson pairava no ar naquele dia 18 de agosto de 2024, no teatro do Centro Histórico-Cultural da Santa Casa, em Porto Alegre. Fãs com o bolachão embaixo do braço, cumprimentando conhecidos e desconhecidos, contavam com gosto sua história íntima relacionada àquele objeto. Fosse na entrada do espetáculo ou na saída, já com os rabiscos valiosos de seu autor, agregando valor inestimável, uma conexão nostálgica se realizava.
 
Nostalgias à parte, atualmente o santiaguense Gilberto Monteiro vive um momento especial em sua carreira. Apresentava naquela ocasião um concerto acompanhado de um jovem quarteto feminino. Ao lado da Sucinta Orquestra, formada por Clarissa Ferreira e Miriã Freitas nos violinos, Gabi Vilanova na viola e Luyra Dutra no violoncelo, lotou duas sessões do teatro e em seguida pegou um voo para se apresentar no Ceará, no festival Choro Jazz.
 
Embora já tenha rodado o mundo em 55 anos de estrada, a formação e a sonoridade do grupo levaram sua gaita de botão para outro lugar. Os novos arranjos mesclam a referência regional com sonoridades eruditas e contemporâneas. Foram escritos por Gustavo Garoto, que agora acompanha Gilberto ao piano e também assina em parceria duas composições inéditas. Uma delas chega às plataformas de streaming neste dia 11 de julho, o single Kardache.
 
Nesta reportagem, Gilberto Monteiro revela detalhes de algumas das lendas que o acompanham e desmistifica outras. Em entrevista ao Jornal do Comércio, confirmou uma personalidade de poucas e significativas palavras. Bem como o som que sai quando a gaita está conectada ao seu corpo.
 
A propósito, a história de que teria se apresentado com uma alça da cordeona arrebentada procede. Em São Paulo, em 2012, não tinha instrumento reserva e precisou improvisar para terminar o show Bailantas, da Cisne Negro Cia de Dança. A solução, conforme recorda, foi tocar na vertical, puxando o fole sempre para cima com a alça que sobrou e voltando a favor da gravidade, dispensando a segunda alça que havia se rompido. Ajudou naquela ocasião o biotipo atlético do artista.
 
Os bastidores da composição e o sucesso da circulação de algumas de suas criações são listados a seguir.

Sete fatos sobre as músicas de Gilberto Monteiro

Em apresentação ao lado de Gustavo Garoto, no Café Fon Fon em Porto Alegre

Em apresentação ao lado de Gustavo Garoto, no Café / Fon Fon em Porto Alegre / ACERVO PESSOAL GILBERTO MONTEIRO/DIVULGAÇÃO/JC  

- Milonga para as Missões foi a principal faixa do LP de estreia de Renato Borghetti, em 1984. Com Gaita Ponto, Borghettinho ganhou o primeiro disco de ouro da história da música instrumental brasileira.
 
- Milonga para as Missões foi gravada também pela dupla sertaneja Victor & Leo, em CD ao vivo, lançado em 2006.
 
- Entrevero de Alpargata, título de uma de suas músicas mais conhecidas, era o nome do primeiro disco que Gilberto Monteiro gravou e nunca lançou. Ao receber as cópias da gravadora, não aprovou e incendiou tudo.
 
- Pra ti guria entrou na trilha do filme Gaúcho Negro (Jessel Buss, 1991), longa-metragem sobre as aventuras de um justiceiro mascarado, em meio a um festival de música.
 
- A melodia de Pra ti guria ganhou uma letra que veio a ser gravada somente 40 anos depois, escrita pelo argentino Ramón Ayala e também interpretada por Jorge Guedes.
 
- De Lua e Sol foi gravada após anos sendo executada ao vivo. Em 1997, lançou-a no disco homônimo, que lhe rendeu o Prêmio Açorianos de Melhor Instrumentista e de Melhor Disco Instrumental.
 
- Compôs seu mais novo single, Kardache, de improviso numa live durante a pandemia de coronavírus. A inspiração veio de uma série turca sobre o império Otomano.

O homem fala através da música

Gilberto Monteiro em Porto Alegre, com Luyra Dutra (esquerda), Gustavo Garoto e Clarissa Ferreira

Gilberto Monteiro em Porto Alegre, com Luyra Dutra (esquerda), Gustavo Garoto e Clarissa Ferreira/ EVANDRO OLIVEIRA/JC

Para a apuração desta reportagem, Gilberto Monteiro fez questão de encontrar a equipe do Jornal do Comércio na escadaria da igreja Nossa Senhora das Dores, em Porto Alegre. Durante uma tarde de sábado, deixou-se fotografar e gravar um vídeo, em momento introspectivo.
 
Antes de conceder entrevista, também ensaiou em meio aos jovens músicos que hoje acompanham-no, e que trocavam comentários sobre o arranjo. Enquanto isso, Gilberto levantava o ouvido para um lado, direcionava o corpo para outro, abria o fole com intensidade para cá, fechava os olhos para lá. Sua única comunicação se dava pelas notas. Não falou uma palavra enquanto tocava.
 
A seguir, acomodou a gaita numa cadeira e conversou sobre sua maneira de ser. "Eu sou aqui pra ti e eu sou lá no palco, eu sou isso em qualquer lugar. Não chego lá no palco querendo falar bonitinho, não", declarou.
 
Com entusiasmo, contou que o novo single, Kardache, surgiu de improviso em meio a uma live na pandemia: "Na época, a gente ficava muito em casa e eu acabei vendo a série Ressurreição: Erturul." Gilberto se identificou com o enredo por causa de sua descendência turca, de várias gerações atrás. A série conta a história de Erturul, pai de Osmão I, fundador do Império Otomano.
 
Motivado por essa composição, em 2023, o produtor Ayrton dos Anjos o convidou para viajar a Istambul. "Eu toquei lá, fiz homenagem para São Jorge, numa manifestação na Capadócia. Mas não foi nada programado. Meu sonho é voltar, porque eu me apaixonei pela Turquia", revela.

Encontro de gerações

Monteiro em frente à mesquita de Santa Sofia, em Istambul, Turquia (2023)

Monteiro em frente à mesquita de Santa Sofia, em Istambul, Turquia (2023) / EMA DALLÉ/DIVULGAÇÃO/JC

Desde a primeira vez que ouviu falar de Gilberto Monteiro, o músico Gustavo Garoto percebeu que era um personagem icônico. Enquanto participava do festival da Moenda, viu um disco dele numa parede e os músicos Zelito Ramos e Leandrinho Rodrigues fizeram uma introdução. Disseram que era um instrumentista fantástico, bastante exigente, e que havia diversas lendas que permeiam o personagem. "Conheci a música dele já com essa magia toda em torno dela", conta.
 
Pouco tempo depois, o produtor Leonardo Gadea fez uma ponte para que se conhecessem. "A gente se encontrou numa praça de alimentação, na Cidade Baixa, e ele apareceu todo generoso, sensível, atencioso, gigantesco", lembra. Logo após, Garoto convidou-o para tocar na Guarda do Embaú, onde vive. Entre idas e vindas, nasceu uma parceria inter-geracional.
 
"Eu chamo ele de mestre de cultura popular, como há em outras regiões do Brasil. Uma pessoa que aprendeu com o pai a tocar com os dedos de uma maneira diferente do que talvez seja convencionado, e construiu uma obra de composições muito icônicas nessa paisagem do Rio Grande do Sul, do interior de Santiago, presente na Bacia do Prata toda", avalia.
 
Garoto ressalta a sensibilidade e o poder de síntese das composições de Gilberto. "Bastante refinada, calcada no folclore, num imaginário de conexão com a terra", conclui.
 
Acompanhado de um quarteto feminino
Com a Sucinta Orquestra e Gustavo Garoto, no CHC Santa Casa (2024)

Com a Sucinta Orquestra e Gustavo Garoto, no CHC Santa Casa (2024)/ CHC SANTA CASA/DIVULGAÇÃO/JC

As gurias da Sucinta Orquestra consideram Gilberto Monteiro uma grande referência cultural. Miriã Freitas recorda que era estudante de violino, quando tocou Milonga para as Missões pela primeira vez, aos 10 anos de idade. "Então, poder conhecer o compositor de perto, de uma obra que é tão marcante pra nossa cultura, é muito gratificante", afirma.
 
A violoncelista Luyra Dutra, que é de Minas Gerais, também aproveita essa oportunidade. "Eu acredito ser revolucionário, não só por ser um quarteto de cordas, acompanhando neste estilo musical, mas um quarteto formado por mulheres", conclui.
 
Já a violista Gabi Vilanova revela que executa arranjos para as composições de Gilberto Monteiro desde os 17 anos, sem nunca tê-lo conhecido. "Agora, ter essa experiência sublime de uma profundidade na música gaúcha, pra mim tem sido muito importante. Eu sou compositora também e daí vejo essa raiz. Parece o tronco das árvores de onde tudo tem sido reverberado. O Gilberto é essa estrutura", conclui a musicista.

Família de tocadores

Gilberto Monteiro ao lado dos Irmãos Acuña

Gilberto Monteiro ao lado dos Irmãos Acuña/ ACERVO PESSOAL GILBERTO MONTEIRO/REPRODUÇÃO/JC

O instrumento que Gilberto Monteiro toca é o acordeon diatônico, conhecido no Rio Grande do Sul como gaita-ponto, gaita de botão, de oito baixos, ou ainda gaita "de voz trocada". Emite as notas musicais a partir de um sistema de botões, em vez de teclas como nos acordeons cromáticos. Cada botão gera dois sons distintos, dependendo da direção do movimento do fole.
 
A gaita chegou ao sul do Brasil pela mão de imigrantes italianos e alemães, aquerenciando-se num processo de tradição oral, passando de pai pra filho, bem como ocorreu com Gilberto, que aprendeu com seu pai Alexandre.
 
Nascido em 7 de janeiro de 1953, em Santiago (do Boqueirão - como gosta de frisar), na região missioneira, Gilberto Andrade Monteiro aprendeu a tocar gaita cedo. "Na minha família, a maioria é músico de campanha. A Francisca Cezimbra Monteiro, que tocava muito para a alta cúpula de Santa Maria na época, nasceu em 1853. Eu, em 1953, cem anos depois", orgulha-se. Sua bisavó Francisca era prima do militar João Cezimbra Jacques, um dos precursores do Movimento Tradicionalista Gaúcho.
 
Desde Santiago, já compunha. Foi lá que começou a criar Milonga para as Missões, por volta dos 14 anos. "É uma coisa maravilhosa, que surge, que vai dominando a gente. E eu sempre tive isso aí comigo", conta.
 
Sobre seu estilo musical, diz não se preocupar muito. "Eu sou o que eu sou. Eu faço a música que eu faço. Quando sinto que a maré não está pra peixe, eu fico na minha. Eu não me atiro nas varas da porteira. Senão tu já viu, vais acabar te estropeando", avalia.
 
Sua ponderação não o impediu de rodar o Brasil e o mundo. Entre 1994 e 1995, formou um quinteto com músicos argentinos, os irmãos Acuña, e passou sete meses no Paraguai. A partir do projeto Sonora Brasil do Sesc, rodou o País entre 2011 e 2012, participando da edição Sotaques do Fole. 
 
Apresentou 118 shows, acompanhado de Eduardo Cantero (violão) e Fernando Gorrie (percussão), interpretando repertório próprio, temas folclóricos e composições de Tio Bilia, mestre popular missioneiro.

O gaiteiro que inventou asas

Capa do single Kardache, gravado com Sucinta Orquestra e Gustavo Garoto

Capa do single Kardache, gravado com Sucinta Orquestra e Gustavo Garoto / DIVULGAÇÃO/JC

Gilberto Monteiro ganhou um episódio só seu na série O Milagre de Santa Luzia: Especial Gaúchos (Sergio Roizenblit, 2012). Figura, assim, no rol dos gaiteiros de referência, ao lado de Adelar Bertussi, Bagre Fagundes, Telmo de Lima Freitas, Luiz Carlos Borges, Luciano Maia, Bebê Kramer, Albino Manique, Edson Dutra e Renato Borghetti, também contemplados no documentário apresentado pelo pernambucano Dominguinhos.
 
Na produção audiovisual, revela que seu sonho era ser piloto aviador. "Até cheguei a inventar umas asas de couro de cavalo", disse.
 
Esse desejo de voar o levou ao alistamento na Base Aérea de Canoas, em 1972. Enquanto cumpria o serviço militar, ainda tinha tempo para abrir o fole na Capital. "Saía lá da base aérea e vinha tocar aqui no Teatro Renascença e nas peñas do CTG 35 nas quartas-feiras", lembra.
 
A bordo dos aviões de carga tipo Douglas, que eram testados na base da Aeronáutica, levava a gaita. "Eles me convidavam e eu vinha tocando por cima do Porto Alegre", recorda. Desta forma, o sonho de pilotar foi ficando em segundo plano, enquanto a música começava a levá-lo longe.
 
Seu primeiro contrato profissional foi proporcionado pelo poeta Marco Aurélio Campos, via a antiga Empresa Porto-Alegrense de Turismo (Epatur), para um show no Parque Anhembi, em São Paulo. Naquele show, Milonga para as Missões já integrava o repertório.
 
Foi quando o programa de televisão Fogo de Chão (TV Difusora, depois Bandeirantes), com apresentação de Carlinhos Castilho e José Antônio Daudt, fez uma seleção de músicas. "Botaram minha milonga de abertura. Era final dos anos 1970. Quando eu saía por aí tocar, já era muito benquista, mas, quando eu gravei pro programa, estourou. Quando eu rasgava e tocava, era um balaço, uma loucura. Depois o Renato gravou pela Som Livre e estourou a nível nacional", relata.

A milonga mais tocada

Nascido em Santiago, na região missioneira, Gilberto Monteiro toca gaita de botão desde a infância

Nascido em Santiago, na região missioneira, Gilberto Monteiro toca gaita de botão desde a infância / GILBERTO MONTEIRO/DIVULGAÇÃO/JC

Renato Borghetti rememora a convivência no CTG 35, quando Gilberto Monteiro estava sempre na volta. Então já conhecia Milonga para as Missões antes de decidir gravá-la, mas precisou aprender a tocá-la. "Naquela época, era tudo de ouvido", pontua. Contudo, teve uma facilidade, pois além de contar com a ajuda do autor, havia aquela primeira gravação, do disco do programa Fogo de Chão, em que Gilberto utilizou uma gaita emprestada de Borghetti.
 
O restante da história é conhecido. Após o sucesso de vendas do disco Gaita Ponto (Som Livre, 1984), Milonga para as Missões até hoje é o carro-chefe dos shows de Renato Borghetti. "Para mim é um prazer, é uma honra. Eu fico muito feliz com isso, porque de repente tu crias um tema, tu serves de ponte para criar uma onda musical", afirma Gilberto.
 
Já Borghetti comenta que é muito difícil prever qual composição irá cair no gosto do público. "Tem algumas músicas que têm algo especial, mas não dá pra saber o porquê. Têm um algo a mais, mas nenhum estudo comprova porque isso aconteceu."
 
Um indicativo da força das composições de Gilberto surge no projeto Fábrica de Gaiteiros, do qual Borghetti participa e onde ensinam música a crianças de 7 a 15 anos, em 25 unidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Uruguai. "O nosso ensino não é direcionado para elas serem profissionais. Podem vir a ser, mas o trabalho é muito mais voltado pra formação da cidadania. Então elas são livres pra escolher o repertório e muitas escolhem Prelúdio de um beija-flor, Pra ti guria, entre outras do Gilberto Monteiro", conclui.
 
Apesar da forte ligação, a única vez que os dois gaiteiros tocaram juntos foi no Santander Cultural, em 2004. Ensaiaram duas vezes e definiram o repertório, junto ao violonista Marcello Caminha, promovendo um encontro inédito, cheio de improvisações e que nunca se repetiu.

Jogou ou não jogou no rio?

No estúdio em Buenos Aires, com Tarrogó Ros, Lucio Yanel e Raulito Barboza

No estúdio em Buenos Aires, com Tarrogó Ros, Lucio Yanel e Raulito Barboza/ ACERVO PESSOAL GILBERTO MONTEIRO/REPRODUÇÃO/JC

O primeiro disco do catálogo de Gilberto é Pra ti guria, de 1987. Mas não foi esse o primeiro que gravou. "Foi um horror, porque eu fiz a gravação e veio de São Paulo tudo errado. E eu não lancei". O caso rendeu uma das suas lendas famosas, de que teria jogado no Guaíba as cópias do vinil. Gilberto esclarece: "Não joguei no rio. Fiquei com tanto nojo que queimei antes do Guaíba ali os 50 discos que vieram. Cheguei antes de atravessar a ponte, botei umas pedras, uns jornais, toquei o fogo, queimei tudo. Chegou até a polícia pra ver o que estava acontecendo".
 
Depois do ocorrido, o produtor Ayrton dos Anjos levou Gilberto para gravar em Buenos Aires, com participação luxuosa dos argentinos Antonio Tarragó Ros e Raulito Barboza. Virou o clássico Pra ti guria, lançado em LP e K7 pela Continental.
 
Naquele momento, já havia vencido a 16ª Califórnia da Canção Nativa, como melhor instrumentista, defendendo duas composições premiadas: Quati-Mundéu, ao lado de Juliano Javoski, e Provinciano, ao lado de João de Almeida Neto.

Parceria com Lucio Yanel e Jayme Caetano Braun

Detalhe da capa de 'Pra ti guria', primeiro álbum de Gilberto Monteiro (1987)

Detalhe da capa de 'Pra ti guria', primeiro álbum de Gilberto Monteiro (1987) / CONTINENTAL/REPRODUÇÃO/JC

Junto ao violonista argentino Lucio Yanel, formou dupla durante anos. "Conheci Gilberto em 1982, na casa de Algacir Costa, em Passo Fundo. Fomos empáticos um com o outro. Aos poucos, de maneira natural, começamos a tocar juntos", recorda Yanel. Mesmo com uma trajetória extensa, não chegaram a gravar um disco para formalizar a união artística. "A nossa caminhada juntos é longa e benéfica nos quatro costados", declara.
 
O parceiro de Corrientes, que veio para o Rio Grande do Sul e se tornou um dos principais nomes do violão pampeano, considera o "toque" de Gilberto Monteiro "uma caixa de ressonância de um sem fim de sentimentos que se aninham num virtuoso da estirpe dele".
 
Lucio Yanel orgulha-se das apresentações com Gilberto acompanhando o pajador Jayme Caetano Braun, como uma confluência de grandes artistas. Há um vídeo no site oficial do gaiteiro, com o trio se apresentando em Pelotas, em que o poeta declama: "Missioneiro como eu/ É a glória do nosso pago/ Ele na verdade é um mago/ Parece que não tem dona/ Nem tampouco se emociona/ Porque enfrenta o desafio/ E nestas noites de frio/ Dorme dentro da cordeona".
 
Discografia
Músico nativista lança nesta sexta-feira seu novo single, Kardache

Músico nativista lança nesta sexta-feira seu novo single, Kardache / EVANDRO OLIVEIRA/JC

- Pra Ti Guria (1987)
- De Lua e Sol (1997)
- Pra Ti Guria Ao Vivo (2020)
- Clareando No Rancho (2022)
 
Fonte! Chasque (reportagem cultural), publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre, por João Vicente Ribas *, em 10 de julho de 2025: ttps://www.jornaldocomercio.com/especiais/reportagem-cultural/2025/07/1209789-a-musica-e-as-lendas-da-gaita-de-gilberto-monteiro-destaque-do-nativismo.html  

* João Vicente Ribas escreve a newsletter Canciones para despertar en Latinoamérica. É Técnico Científico I - Jornalista, na Emater/RS-Ascar.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Santa Maria recebe Rodeio Internacional do Conesul

Edição já soma mais de 1 mil inscritos oriundos de diversos locais da América Latina /João Alves/DIVULGAÇÃO/CIDADES

A Associação Tradicionalista Estância do Minuano se prepara para realizar um dos mais tradicionais eventos locais e receber um amplo público. O 29º Rodeio Internacional do Conesul espera receber mais de 30 mil pessoas de 7 a 10 de março, na Estrada Francisco Viterbo Borges, 705, bairro Minuano, em Santa Maria.
 
Esta edição do Rodeio do Conesul já soma mais de 1 mil inscritos oriundos de diversos locais da América Latina e tem apoio da Prefeitura, desta edição. O rodeio, que começou em 1992, reuniu um público de quase 30 mil pessoas no ano passado. "O evento tem uma importância e uma relevância muito grande para a cidade, culturalmente, por ser um evento ligado à cultura gaúcha, na sua mais pura essência que é a parte da atividade do campo. A importância econômica dele é muito grande, e estima-se que movimente mais de R$ 2,5 milhões dentro da cidade", considera o presidente da Associação Tradicionalista Estância do Minuano, Bruno Fernandes.
 
Ele afirma que, este ano, o evento receberá a Feira da Prefeitura, voltada para negócios, além dos shows, o baile, o remate dos cavalos, e as provas da pista, que é a prova de laço e as gineteadas. A prefeitura contribuiu em R$ 300 mil para a montagem da estrutura no local.
 
Fonte! Jornal Cidades, encartado do Jornal do Comércio de Porto Alegre (RS), edição eletrônica do dia 1º de março de 2024: https://www.jornaldocomercio.com/jornal-cidades/2024/03/1144744-santa-maria-recebe-rodeio-internacional-do-conesul.html  

domingo, 21 de janeiro de 2024

Grupo Os Tapes foi referência estética e sonora para a música popular gaúcha

 

Terres Vieira, Silvio Luis Pereira, Waldir Garcia, Madeira, Dias Pacheco, José Arthur Rebello, José Júlio Prestes. Ao centro, Cláudio Boeira Garcia

Terres Vieira, Silvio Luis Pereira, Waldir Garcia, Madeira, Dias Pacheco, José Arthur Rebello, José Júlio Prestes. Ao centro, Cláudio Boeira Garcia

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC
 
Tapes era uma pequena cidade de 7 mil habitantes, à margem da Lagoa dos Patos, a 100 quilômetros de Porto Alegre, quando a diretora artística Carolina Andrade chegou de São Paulo para descobrir nela um grupo que seria conhecido Brasil afora. O resultado foi o lançamento dos dois primeiros LPs d'Os Tapes pela gravadora Discos Marcus Pereira, a partir de 1975, e a participação na coleção Música Popular do Sul.
 
Carolina trabalhava em um grande projeto de mapeamento fonográfico, desenvolvido em todas as regiões do País. Em cada estado, contava com diversos compositores, intérpretes e pesquisadores. No Sul, participaram Elis Regina, Paixão Côrtes, Noel Guarany e os jovens músicos do grupo Os Tapes, entre outros.
 
Aquela coleção em vinil logo repercutiu na imprensa nacional. No lançamento do primeiro volume sulino, a crítica Ana Maria Bahiana escreveu no semanário Opinião que "o mesmo sopro de força e vitalidade do longínquo Nordeste, que provocou arrepios nas capitais, agora vem das profundezas do Sul".
 
Já o crítico José Ramos Tinhorão comentou no Jornal do Brasil o primeiro disco dos Tapes: "uma das mais bem sucedidas experiências levadas a efeito no campo da música popular brasileira, desde a criação do Quinteto Armorial por Ariano Suassuna em Pernambuco".
 
Na imprensa gaúcha, o grupo também foi elogiado logo nas primeiras apresentações. Juarez Fonseca escreveu em Zero Hora em 1977 que "Os Tapes demonstram, com irrecusável nitidez, que o Rio Grande do Sul é mesmo um estado de riquíssima raiz cultural".
 
Essas credenciais da crítica prenunciavam a relevância de um grupo que, em pouco mais de uma década de atividades, deixou uma marca na música gaúcha e brasileira. Agora, essa história poderá ser conhecida pelas novas gerações e relembrada por quem a acompanhou.
 
No final do ano, entrou no ar o site ostapesacervo.com.br. Nele, é possível escutar os três LPs do grupo, áudios inéditos de shows e ainda gravações de versos populares recolhidos em campo. O acervo também permite visualizar cartazes, fotos, letras e notas de imprensa.
A digitalização do acervo tem a coordenação do compositor Claudio Boeira Garcia, um dos fundadores e o componente mais longínquo. Suas anotações pontuam todos os materiais, ajudando a contextualizá-los, com reflexões poéticas.
Os Tapes foi um grande coletivo, por onde passaram mais de 40 músicos, entre integrantes e participantes esporádicos. Nomes como o acordeonista Gilberto Monteiro e o multi-instrumentista Martin Coplas gravaram em seus discos ou subiram ao palco em algum dos espetáculos.
Já entre os integrantes, José Claudio Machado foi o mais conhecido, cantando em carreira solo até sua morte em 2011. Aliás, o município de Tapes prepara um monumento em sua homenagem para este ano.
 
Sulinos e nativos 
 
Para o Estado, Os Tapes representam uma referência estética. Antes mesmo da projeção nacional, investiram na criação e na pesquisa da música latino-americana, indígena e da Costa Doce, indo além dos ritmos e motivos gauchescos. Participaram do festival Califórnia da Canção desde o início e venceram em 1972 com a icônica Pedro Guará, o maior sucesso até hoje.
 
Na contracapa do LP Canto da Gente (1975), Marcus Pereira ressalta que Os Tapes ligavam-se à América Latina através do som nativo quéchua e guarani. "É a descoberta do elo perdido, é a mão estendida para ampliar a roda da grande ciranda dos povos americanos de cultura latina", escreveu.
 
Já para o etnomusicólogo Daniel Stringini da Rosa, a trajetória dos Tapes foi essencial para modular o que se reconhece como Música Popular do Sul e segue influenciando cancionistas politizados. Stringini acredita que algumas experiências sonoras foram essenciais para a formação do grupo. Dentre elas, o diálogo com Rogério Duprat, arranjador da Tropicália, já nas primeiras gravações em estúdio.
 
Nesta reportagem, o Jornal do Comércio relembra momentos marcantes da trajetória dos Tapes, a partir de documentos que compõem o acervo digital e depoimentos de dois de seus integrantes, Claudio Boeira Garcia e Otacílio Meirelles.
 
Andanças Musicais a partir de Tapes
Tapes, 1973. Em pé: Luis Alberto Koller, Cláudio Boeira Garcia, José Cláudio Machado. Agachados: José Waldir Souza Garcia, José Rafael Koller.

Tapes, 1973. Em pé: Luis Alberto Koller, Cláudio Boeira Garcia, José Cláudio Machado. Agachados: José Waldir Souza Garcia, José Rafael Koller.

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC

É curioso que o nome do grupo tenha sido grafado com acento agudo nos primeiros LPs. A gravadora teria resolvido acentuar a palavra "Tápes" para não causar confusão com a pronúncia em inglês, "teipes". Essa história é contada por Henrique Mann, no livro Som do Sul (2002).
 
Outra curiosidade recuperada pelo autor refere-se à apresentação de uma música de 25 minutos na primeira Califórnia da Canção, festival que viria a ser o mais importante do Estado. "Ganharam prêmio especial de pesquisa e geraram o estabelecimento de duração para as apresentações no festival", relata.
Aquela foi a estreia, em 1971, com o núcleo fundante, os primos Claudio Boeira Garcia e José Waldir Garcia, ao lado do amigo José Cláudio Machado. Apresentaram Vida, Cisma e Canto de um Farrapo, uma obra "mais curta que uma opereta e mais longa que uma faixa de disco de vinil", constituída por récitas e cantos, na voz de um farrapo que participou da guerra civil e reflete sobre viver bem no mundo.
 
No ano seguinte, Os Tapes voltaram a Uruguaiana, já com outra formação, e venceram a 2ª edição da Califórnia. Apresentaram três canções, mas a que ganhou foi a milonga Pedro Guará, dos versos inesquecíveis: "Num lamento chegou o minuano/ Anunciando o último inverno".
 
O reconhecimento gerou uma série de shows pelo Estado. A seguir, em 1974, foram à Argentina conhecer o já importante festival de folclore de Cosquín, frequentado por nomes como Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui e Jorge Cafruni. Inspirados pelo que viram, realizaram em Tapes o 1º Acampamento da Arte Gaúcha. Vale observar que após meio século, ambos eventos seguem ativos e estão promovendo edições em 2024.
 
Agora, o festival mais distante do qual Os Tapes viriam a participar seria o Horizonte, em 1979 na Alemanha. Os gaúchos foram convidados para representar o Brasil ao lado de Gilberto Gil e do Quinteto Violado. Na viagem, aproveitaram o intercâmbio com colegas de diferentes partes do mundo.
 
Ideias e resistência
Capa do disco Canto da Gente, do conjunto Os Tapes (1975)

Capa do disco Canto da Gente, do conjunto Os Tapes (1975)

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC

Os músicos d'Os Tapes eram também professores, comerciários, carpinteiros, funcionários públicos, mecânicos. Por acumularem atividades, eram considerados amadores. "Nos organizamos de forma cooperativada para lidar com as demandas de sustentação e infraestrutura do grupo. Nossas atividades públicas, em geral, eram em feriados e fins de semana", relata Claudio.
 
Porém, o adjetivo "amador" era revertido em qualidade, pois revelava o caráter idealista do grupo, ligado à arte e avesso ao mercado musical. Marcus Pereira, quando entrou em contato com aqueles músicos, lembra que vinham se recusando a aceitar propostas de gravação, até encontrar parceria em sua gravadora: "Os Tapes não estavam interessados em ganhar dinheiro a custa do sacrifício das suas convicções sobre a música popular do Brasil. Como nós também não estamos."
Quando foram a São Paulo, Carolina Andrade recorda que ela mesma dirigia uma kombi alugada para transportar Os Tapes. "A gravadora era pequena e não tinha separação entre produtor, diretor artístico, eu fazia tudo", contou em um programa da rádio Cultura FM.
 
Carolina ficou impressionada quando soube que eles também eram pesquisadores, principalmente do passado guarani e das Missões. "É claro que eles não eram indígenas, mas é muito bonita a interpretação que fizeram e por isso nós pusemos algumas músicas deste trabalho no LP."
 
Naquele 1975, além das gravações, Os Tapes apresentaram o espetáculo Americanto, inspirado nas reduções jesuíticas-guaranis dos séculos XVII e XVIII. Sobre as motivações de criar esse show, Claudio revela que desejavam compreender o que aconteceu no passado e lidar com os efeitos desastrosos da violência física e simbólica desencadeada por aqueles processos "de dominação, quebra de resistência e apagamento de conflitos".
 
Americanto expressa a influência acadêmica e política que permeou a musicalidade do grupo, em um contexto pós 2ª Guerra, de governos totalitários, colonialistas e ditatoriais. "Época de apagamento das tradições racionalistas, humanistas, iluministas, libertárias, sociais democráticas", descreve Claudio. Porém, passados mais de 50 anos do encerramento das atividades d'Os Tapes, o compositor lamenta que continuamos diante de assédios autoritários.
 
Censura
Os Tapes em Berlin (Alemanha) com Gilberto Gil, 1979

Os Tapes em Berlin (Alemanha) com Gilberto Gil, 1979

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC

Consultando o Arquivo Nacional, na seção de documentos da Divisão de Censura de Diversões Públicas, encontram-se processos de 1982 para aprovação de algumas canções, dos compositores Claudio Boeira Garcia, Otacílio Meirelles e Waldir Garcia. Todas seriam liberadas e entrariam no repertório do terceiro disco dos Tapes.
 
Para a pesquisadora Camila Padilha Costa, o discurso político nas canções do grupo é sutil. E apesar de não terem sido censurados pelas letras, eram articulados politicamente em uma época de ditadura. "O Claudio viajava bastante, então tinha uma rede de contatos e informações bem grande", afirma. Nos espetáculos, interpretavam autores latino-americanos, da nova canção chilena, por exemplo. "Era como uma forma de trazer essa nuvem política, havia uma identificação", diz Camila.
 
Sobre o maior sucesso, Pedro Guará, inventaram-se diversas histórias. "Tem gente que acha que era para Che Guevara, ou que o Pedro Guará era um militante que acabou desaparecendo", diz Camila. Já o compositor Claudio, quando questionado pela reportagem, respondeu de forma espirituosa: "Talvez seja mais fácil perguntar para as várias pessoas que ouvi dizer que conheceram Pedro Guará do que para mim mesmo?".
 
Pequeno lugar cosmopolita
Grupo (em fotos dos anos 1980) priorizou a integridade artística

Grupo (em fotos dos anos 1980) priorizou a integridade artística

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC

Foi num golpe de sorte, em 1980, que Otacílio Meirelles substituiu a falta de um dos músicos em um show. Acompanhava os ensaios há anos e sabia todas as músicas. Acabou sendo integrante d'Os Tapes, compondo, cantando, tocando violão e viola. Gravou no disco de 1982 e, já nos anos 2000, criou ao lado de Claudio Boeira Garcia as canções do CD Estação das Águas, considerado uma continuidade do trabalho.
 
Nos anos de ditadura, Otacílio recorda que as atividades dos Tapes não eram totalmente livres. Algumas vezes tiveram que interromper ensaios e adiar apresentações. O músico chama atenção que, até mesmo em pequenas cidades como Tapes, havia "infiltrações policialescas", o que não impedia o turbilhão cultural do Brasil de então. "A condição para ser resistente e forte era criar e participar de tudo, mesmo pondo a liberdade e a integridade física em risco", conclui.
 
Diante da censura, acredita que Os Tapes empreendiam um modo primário de se levar notícias, através de viagens e shows. "Foi deste modo especial de comunicação que os Tapes se valeram, o boca-em-boca era um caminho seguro e certeiro", avalia.
 
Assim, enquanto as mídias eram vigiadas, os espetáculos mais interessantes aconteciam longe delas, nos lugares mais simples. Por exemplo, no teatro de 140 lugares que improvisaram numa oficina de carros. Nele, Otacílio lembra de ter ouvido Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, três anos antes de ser liberada pela censura, cantada pelo gaúcho Nando D'ávila. "Foi ali que pude conhecer as canções de Violeta Parra, Victor Jara, Daniel Viglietti, Facundo Cabral, Los Olimareños, entre outros, muitos anos antes de chegarem ao Brasil através da mídia", recorda.
 
Folclore
 
Vila dos Pescadores - Cláudio Boeira Garcia, Jorge Luis Ferreira, José Júlio Prestes, Pedro Dapper e Ronaldo Ramos Linck. Anos 80

Vila dos Pescadores - Cláudio Boeira Garcia, Jorge Luis Ferreira, José Júlio Prestes, Pedro Dapper e Ronaldo Ramos Linck. Anos 80

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC
 "Desde nossos avós víamos e ouvíamos sons de rabeca, estribo de cavalo transformado em triângulo, pandeiro, pequenos e médios tambores com pele de cabras, gaita de botão, violas e violões em especial nas Cantorias de Reis que ocorriam anualmente nas regiões e povoados litorâneos relativamente próximos ao povoado de Tapes". Com esse relato, Claudio informa que, nos anos de formação musical dos fundadores do grupo, havia largo intercâmbio de instrumentos na região. Além disso, confeccionavam flautas de inspiração indígena.
 
Otacílio reforça que a incorporação desses instrumentos acompanhava o resgate de músicas tradicionais. "O que é de domínio público é muito vulnerável, por estar sujeito apenas às lembranças e ao gosto das gerações, por isso precisa ser resgatado, para que não desapareça", afirma.
O bombo leguero é um exemplo, que o percussionista Luiz Alberto Koller tocava junto ao corpo, à maneira dos tocadores antigos. Koller confeccionava seus próprios tambores, seguindo ensinamentos do velho mestre Pororó, e os levava ao palco nos shows dos Tapes.
 
De acordo com Otacílio, o bombo leguero era bastante utilizado em serenatas na época, no interior do Estado. "O tocador de leguero no Rio Grande Do Sul é um instrumentista dos primórdios da cultura afro-gaúcha rural, que saiu dos terreiros de umbanda, quimbanda, batuque, e ganhou a cultura popular", acrescenta.
 
O antropólogo Norton F. Corrêa, pesquisador das manifestações afro gaúchas, hoje professor da Universidade Federal do Maranhão, colaborou muito com Os Tapes, fornecendo informações do trabalho de campo com o Quicumbi e o Maçambique, por exemplo. Otacílio observa que essa musicalidade sempre foi forte, principalmente no litoral, mas, na época, "a música gaúcha que se ouvia no rádio tinha profunda influência europeia".
 
Acervo está sendo disponibilizado na íntegra
Foto da contracapa do LP 'Canto da Gente'

Vila dos Pescadores - Cláudio Boeira Garcia, Jorge Luis Ferreira, José Júlio Prestes, Pedro Dapper e Ronaldo Ramos Linck. Anos 80

ACERVO PESSOAL OS TAPES/REPRODUÇÃO/JC

Em 2020, mais de quatro décadas depois da visita de Carolina Andrade, outra pesquisadora chegou àquela (ainda) pequena cidade, para conhecer Os Tapes e levar sua obra para o mundo. A geógrafa Camila Padilha Costa esteve lá no meio da pandemia, a fim de pesquisá-los para seu Mestrado na UNILA.
 
Encontrou na casa de Claudio Boeira Garcia baús com diversos materiais, incluindo recortes, fitas K7, fotografias. Com a iniciativa, Claudio também acabou se empenhando e passaram a digitalizar tudo para publicar no site ostapesacervo.com.br, desenvolvido por outra Camila, a web designer Camila K. G. Bazetto.
 
Após o lançamento em 2023, o acervo segue sendo alimentado. A histórica canção de quase meia hora, apresentada na primeira Califórnia, por exemplo, logo será disponibilizada.
 
Dos dois anos de trabalho conjunto, a geógrafa Camila destaca um dos momentos mais marcantes, quando escutaram uma fita de 1976, de uma senhora de 102 anos, de Osório, que cantava cantigas de maçambique. "A gente não sabia o que fazer, a gente ficou muito emocionado de ouvir aquilo", conta.
 
Camila preocupa-se com a falta de valorização da memória. "Hoje a gente está num lugar e a gente não sabe o que aconteceu. Está todo mundo sempre na tela e na novidade. No fim, a história da onde a gente vem, a gente não sabe."
 
Pesquisas acadêmicas

Adriano Pinzon Garcia
(PUCRS, Monografia, 2014)
Mídia Impressa e Cultura Regional: o grupo Os Tápes retratado pela imprensa de referência gaúcha e nacional
 
Camila Padilha Costa
(UNILA, Dissertação, 2023)
Canções Sem Fronteira de Tempo e Língua: percursos afetivos na construção da memória de Os Tapes Acervo
 
Daniel Stringini da Rosa
(Ufrgs, Dissertação, 2016)
Do Canto da Gente (Os Tápes, 1971) ao Canto Politizado: memória e política na constituição de uma música popular do sul

Discografia

1975 Canto da Gente (LP)
 
1980 Não Tá Morto Quem Peleia (LP)
 
1982 Os Tapes (LP)
 
2002 Estações das Águas (CD)
 
Fonte! Chasque (post / reportagem) publicado no Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, por João Vicente Ribas (reportagem cultural) no dia 18 de janeiro de 2023: https://www.jornaldocomercio.com/especiais/reportagem-cultural/2024/01/1139269-grupo-os-tapes-foi-referencia-estetica-e-sonora-para-a-musica-popular-gaucha.html

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Justiça suspende obras no Parque da Harmonia; prefeitura vai recorrer da decisão

Mais de 100 árvores foram derrubadas para as obras no local / Gabriel Poester/Ser Ação/Divulgação JC 

A juíza Gabriela Dantas Bobsin da 10ª Vara da Fazenda Pública de Porto Alegre concedeu uma liminar determinando a suspensão imediata das obras no Parque da Harmonia. A decisão foi tomada após ação popular que apontou diversos danos ambientais em decorrência da derrubada de 103 árvores no local pela Gam3 Parks, empresa concessionária do parque, além de omissão da prefeitura de Porto Alegre na fiscalização dos trabalhos. A prefeitura já informou que vai recorrer da decisão

• LEIA TAMBÉM: MTG lamenta situação das obras do Parque da Harmonia

“Os fatos noticiados pelos autores são gravíssimos e estão amparados por evidências de que a iniciativa privada, com a permissão do Município, promove verdadeira devastação em área do conhecido 'Parque da Harmonia', que conservava até então substancial número de espécies arbóreas e fauna que igualmente necessita ser alvo de proteção. As fotografias apresentadas demonstram que onde existia vegetação foi aberta uma 'clareira', com máquinas e implementos, inclusive retroescavadeira, agindo no local de modo a descaracterizá-lo totalmente”, diz o despacho assinado pela juíza.
 
No início de julho, diversos grupos se mobilizaram contra o corte de árvores no local pedindo a suspensão das atividades pela concessionária. Uma reunião na Comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) da Câmara de Vereadores debateu o tema, e na ocasião o Ministério Público descartou a paralisação das obras. 
Segundo a Gam3 Parks, o montante das árvores cortadas representa 8% do total das cerca de 1,2 mil  existentes na área. Foi autorizado o corte de 432 árvores.
 
O descumprimento da suspensão das obras acarretará o pagamento de multa diária. Em nota, a Gam3 Parks informou que tem total tranquilidade e comprometimento em demonstrar a idoneidade das obras em andamento. "O projeto do Parque Harmonia foi concebido com o objetivo de oferecer à comunidade um espaço público revitalizado, harmonioso e multifuncional, com foco na preservação e na promoção de atividades culturais. Desde o início, todas as etapas do projeto foram conduzidas com máxima transparência e dentro das diretrizes legais e ambientais vigentes", diz o texto (leia a íntegra no final da reportagem).
 
O vereador Marcelo Sgarbossa, um dos autores da ação popular, considera a liminar uma vitória. Ele destaca que, mesmo com todas as manifestações na Câmara de Vereadores, no local, reuniões e reportagens em jornal onde arquitetos alegaram que o projeto foi alterado sem autorização, as obras 'continuavam a mil por hora'.  "A decisão vem para trazer um debate sobre o que está acontecendo. A olhos visto, está ocorrendo uma verdadeira devastação, é visível", afirmou. 
Ele critica um dos argumentos apresentados por defensores do corte de árvores. “Era um aterro onde foram plantadas as árvores, mas se tornou um patrimônio paisagístico ambiental e cultural. Então porque foi criado pelo homem pode tirar”, questiona. O vereador elogia a postura da juíza em reconhecer a área do Parque da Harmonia como um patrimônio ambiental e cultural da cidade. “Os tradicionalistas e o pessoal dos piquetes devem estar muito incomodados com essa devastação em um lugar que é da cultura gaúcha e não só porto-alegrense”, salienta. 
 
Embora seja possível a Gam3 Parks ingressar com recurso para derrubar a liminar, Sgarbossa espera que a empresa não recorra e que agora, com a questão mediada pela Justiça, se possa entender o tamanho da destruição na área. 

Logo após a decisão, a Procuradoria-Geral do Município anunciou que vai recorrer da liminar. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade, Germano Bremm, todo o licenciamento para a obra seguiu as normas urbanísticas ambientais. "Entendemos a importância e o papel dos órgãos de controle e assim como fizemos junto ao Ministério Público, Câmara de Vereadores e recentemente com a demanda do Tribunal de Contas, iremos prestar todas as informações ao Judiciário", afirma.
 
Leia a íntegra da nota da Gam3 Parks:
"A GAM3 Parks, responsável pela concessão do parque Maurício Sirotsky Sobrinho e trecho 1 da orla, manifesta-se com total tranquilidade e comprometimento em demonstrar a idoneidade das obras em andamento.

O projeto do Parque Harmonia foi concebido com o objetivo de oferecer à comunidade um espaço público revitalizado, harmonioso e multifuncional, com foco na preservação e na promoção de atividades culturais. Desde o início, todas as etapas do projeto foram conduzidas com máxima transparência e dentro das diretrizes legais e ambientais vigentes.

Encaramos essa medida como mais um passo no processo de análise e avaliação, acreditando que, ao final, a justiça reconhecerá a validade e a relevância deste empreendimento para a comunidade.

No entanto, é importante destacar que a paralisação das obras poderá impactar na infraestrutura para a realização do Acampamento Farroupilha.

Nosso compromisso com a população é pautado pela cooperação e diálogo, e estamos à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos necessários, buscando a rápida resolução dessa questão para retomada das obras e entrega a altura para realização do maior evento gauchesco do mundo.

Reiteramos nossa confiança no trabalho sério e responsável realizado até o momento, contando com o apoio e compreensão de todos os envolvidos no processo."
 
Fonte! Chasque (reportagem) publicado no sítio oficial do Jornal do Comércio de Porto Alegre - RS, em 31 de julho de 2023, por Luciane Medeiros. Abra as porteiras clicando em: https://www.jornaldocomercio.com/geral/2023/07/1117123-liminar-determina-a-suspensao-imediata-das-obras-no-parque-da-harmonia.html