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domingo, 20 de setembro de 2026

Tradição gaúcha aquece comércio não só em setembro, mas no ano todo

Raynieri destaca que setembro representa o 'período de colheita' / TÂNIA MEINERZ / JC

O que faria uma empresa atacadista mudar de perfil e vender no varejo, durante um único mês no ano? A resposta é simples: aumento no faturamento, incremento no número de clientes e a possibilidade de fechar novas parcerias e negócios. É o que acontece todo o mês de setembro com a Confraria Crioula, empresa do município de Cotiporã, que se remodela para aproveitar o aquecimento nas vendas de produtos tradicionalistas durante as festividades Farroupilha.

Raynieri Confraria Crioula - Acampamento Farroupilha 2026 TÂNIA MEINERZ/JC 
 
“Nosso período de safra vai de fevereiro a agosto, seis meses antes de colhermos os frutos extraordinários do mês de setembro, afirma o gerente comercial da empresa, Raynieri Piber Cezar.
 
O mesmo acontece com outros tantos lojistas que focam seus negócios em elementos do tradicionalismo gaúcho, da pilcha ao chimarrão, e que registram incremento nas vendas antes mesmo do início oficial da Semana Farroupilha, de 13 a 20 de setembro.
 
Uma pesquisa do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas) mostra que 89% dos lojistas que comercializam artigos ligados à cultura gaúcha já registram procura pelos produtos, índice 5,6 pontos percentuais superior ao observado no período em 2025.
 
Além de antecipar as compras, o consumidor também deve desembolsar mais: a expectativa dos lojistas ouvidos na pesquisa do Sindilojas é de um tíquete médio de R$ 362,50 neste ano, alta nominal de 11,5% em relação a 2025, apesar de o cenário econômico estar desfavorável para grandes volumes de compras.
 
Para 44,4% dos entrevistados, o movimento já é maior do que no ano passado. “Por mais que nós tenhamos essa dicotomia na questão da economia, temos uma cultura gaúcha forte. É pela nossa roupa que demonstramos essa cultura: um lenço, uma boina, uma pilcha, uma faca, o churrasco ou o mate. Quando a paixão entra em cena, às vezes ela não tem muito nexo. Isso mexe com o comércio e faz as pessoas quererem algo diferente”, afirma o vice-presidente do Sindilojas, Tarcísio Pires.
 
O levantamento da entidade mostra ainda que a procura concentra-se principalmente em itens que compõem a indumentária tradicional. A bombacha aparece como o produto mais citado pelos lojistas, mencionada por 66,7% dos entrevistados. Na sequência, estão as alpargatas, com 44,4%, e camisa ou polo, lenço e chapéu ou boina, todos apontados por 33,3%. Um dado que chama atenção é a presença da pilcha infantil, citada por 33,3% dos comerciantes. É a primeira vez que o item aparece na pesquisa, sinalizando uma ampliação da demanda para o público infantil.
 
A cadeia ligada ao chimarrão também participa desse movimento. Erva-mate, chás, cuia e bomba foram citados por 22,2% dos lojistas, mesmo percentual registrado para vestidos de prenda.
 
Na avaliação do presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva, o comportamento do consumidor evidencia que a tradição permanece sendo transmitida entre gerações e produz efeitos também sobre a atividade econômica.
 
“Quando a tradição ganha as ruas, o comércio também sente esse movimento. É uma combinação que valoriza a nossa cultura e movimenta a economia local”, afirma.
 
A pesquisa revela ainda que o aquecimento nas vendas acompanha os locais onde são realizados os acampamentos farroupilhas, mas também pontos fora deles, com uma característica de demanda bem pulverizada.
“Eu acredito que isso acontece pela cidade, não é só no Parque da Harmonia. Temos acampamentos em outras regiões, como a Restinga e a Região Metropolitana, além das escolas, que também criam seus ambientes durante essa semana. O Parque é um polo, mas esse fomento da cultura e o movimento do comércio se espalham pela cidade”, avalia Pires.
 

Atacado altera perfil de comercialização para aproveitar Acampamento Farroupilha

Durante o mês de setembro, impulsionada pelas comemorações da Semana Farroupilha, a Confraria do Gaúcho, uma confecção de roupas gauchescas do município de Cotiporã, prioriza as vendas no varejo para aproveitar o movimento do Acampamento Farroupilha.
 
“É um momento de grande rentabilidade e de contato direto com o público final, em busca de negócios dentro do acampamento e fora dele também, no decorrer do ano”, afirma o diretor comercial da empresa, Raynieri Piber Cezar. Essa relação ajuda a explicar como o impacto econômico de setembro ultrapassa os limites físicos dos eventos tradicionalistas.
 
O consumidor que compra uma peça no Acampamento pode voltar a procurar o mesmo produto meses depois em uma loja de sua cidade, mantendo a demanda na cadeia mesmo após o encerramento da Semana Farroupilha. Entre os produtos mais vendidos, estão as bombachas e as alpargatas que viraram moda, especialmente entre as novas gerações.
 
A loja no acampamento é usada também como uma espécie de laboratório para observar diretamente o consumidor final e identificar preferências, mudanças de modelagem e tendências que podem orientar a produção do ano seguinte.
 
“Fidelizamos clientes que, posteriormente, buscam os produtos da marca em centenas de lojas parceiras espalhadas pelo Estado durante o restante do ano”, revela Cezar.
 
A preparação das peças para o boom de setembro começa meses antes. A empresa trabalha com uma espécie de “safra” de seis meses que antecede o período de maior movimento. A operação envolve cinco fábricas, além de fornecedores terceirizados, e mobiliza profissionais de diferentes etapas da cadeia produtiva, da costura à fabricação de calçados. Segundo o gerente, a empresa precisa ampliar a contratação de trabalhadores temporários e acionar parceiros para conseguir atender à demanda concentrada.
 
Como a procura não mantém a mesma intensidade durante todo o ano, a empresa estabelece acordos de compra com parceiros para garantir uma produção mínima
mesmo nos períodos de menor movimento.
 
“Atendemos mais de 300 lojas em todo o Estado, além de termos clientes em Santa Catarina e no Paraná”.

O proprietário da loja Etilo & Tradição, Vilson Tadeu Ferreira, localizada permanentemente no Parque da Harmonia, conta que o faturamento é cerca de 70% superior em setembro, em comparação com os demais meses do ano.
 
“Mas procuramos estabelecer um calendário comercial bem diversificado, com diferentes ciclos de consumo ao longo do ano, para reduzir a dependência exclusiva da Semana Farroupilha”, explica.
 
A empresa possui quatro pontos de operação: além da loja no parque, a matriz em Boqueirão do Leão, e duas lojas itinerantes que acompanham eventos, festas, rodeios e acampamentos. “Paralelo a isso, o público jovem nos procura muito via WhatsApp e Instagram, em busca de indumentária gaúcha, kits para churrasco e mate, além das lembrancinhas do Rio Grande do Sul”, conta o comerciante.

 

Comércio próximo ao Harmonia também aproveita alta das vendas em setembro

O movimento gerado pelo Acampamento Farroupilha não fica restrito aos estabelecimentos instalados dentro do Parque da Harmonia. Lojas localizadas nas proximidades também aproveitam o aumento da circulação de consumidores em setembro. É o caso da Pithan Pilchas, confecção especializada em indumentária gaúcha que mantém uma loja próxima ao Gasômetro.

Simone Pithan, da Pithan Pilchas. Arquivo Pessoal/JC/Divulgação 
 
Para a proprietária da empresa, Simone Pithan, setembro é um dos períodos mais importantes do ano para o negócio, que se prepara ao longo dos meses para atender ao aumento da procura.
 
“O Natal nosso é agora”, afirma, destacando que parte significativa do que foi produzido e estocado durante o ano encontra mercado justamente neste período.
 
Embora não tenha uma estimativa percentual para o aumento das vendas, ela relata que a demanda cresce de forma expressiva nas semanas que antecedem a Semana Farroupilha, quando consumidores deixam para a última hora a escolha de cor, modelo e tamanho das peças.
 
A localização próxima ao Parque Harmonia contribui para captar esse fluxo, mas a estratégia da empresa é diferente da adotada pelos pontos comerciais dentro do Acampamento. A loja aposta em atendimento personalizado, com espaço para que clientes possam experimentar peças com mais conforto e receber orientação sobre a indumentária. A proposta ganha importância porque a empresa trabalha com diferentes modelos de bombacha e precisa explicar as características e usos de cada peça.
 
O principal produto comercializado é a bombacha, procurada tanto por homens quanto por mulheres. A empresa também trabalha com vestidos de prenda, peças sob medida, lenços, cintos e outros acessórios da indumentária. Há ainda uma aposta em modelos mais modernos, que aproximam a roupa tradicional do uso cotidiano. "Consumidores que não têm ligação direta com o tradicionalismo também passaram a incorporar a bombacha ao guarda-roupa pela combinação de conforto e estilo”, diz Simone.

Além do consumidor local, a loja também recebe compradores de fora do Estado interessados na cultura gaúcha. A empresária relata casos de turistas que procuram peças por curiosidade ou depois de experimentar a indumentária e incorporá-la ao dia a dia. Dessa forma, setembro amplia não apenas o volume de vendas, mas também o alcance de um mercado que combina tradição, turismo e consumo de moda.

Concorrência com Acampamento Farroupilha faz movimento cair em loja do Mercado Público


No Mercado Público de Porto Alegre, o comerciante Lair Groff Júnior, gerente do Rancho Gaúcho, com a irmã Graziela Groff e a sobrinha Mariana Groff. Arquivo Pessoal/Divulgação/JC 
 
Se para parte do comércio gaúcho setembro representa o auge das vendas associadas à tradição, para alguns estabelecimentos especializados em produtos típicos o cenário é diferente. No Mercado Público de Porto Alegre, o comerciante Lair Groff Júnior, gerente do Rancho Gaúcho, que trabalha com erva-mate, cuias, bombas e outros artigos ligados ao chimarrão, percebe uma redução do movimento no período em que a programação Farroupilha ganha força.
 
Na avaliação dele, o Acampamento Farroupilha, no Parque Harmonia, acaba atraindo parte dos consumidores que tradicionalmente circulariam pelo Centro.
 
“Eu acho que o Harmonia nos puxa muito a clientela para lá. As pessoas já vão direto para lá”, afirma.
Apesar de manter uma clientela constante e de contar com as vendas pelas redes sociais e pelo comércio eletrônico, o comerciante diz que setembro não está entre os períodos de maior movimento para seu negócio. A principal temporada de vendas ocorre entre abril e agosto, justamente durante os meses mais frios, quando aumenta o consumo de chimarrão e também cresce o fluxo de turistas em Porto Alegre.
 
“Eu trabalho bem de abril a agosto. Essa é a minha temporada. É o frio, é o chimarrão que aumenta”, explica.
 
Setembro, outubro e novembro são apontados como meses de queda mais acentuada. O movimento volta a ganhar força em dezembro e janeiro, impulsionado pelas férias e pela presença de turistas na Capital. A lógica mostra que a relação entre tradição gaúcha e consumo não é uniforme entre os diferentes segmentos. Embora o chimarrão esteja entre os produtos associados à identidade cultural do Estado e apareça entre os itens movimentados pelo Mês Farroupilha, o comportamento do consumidor pode variar de acordo com o canal de venda e a localização do estabelecimento.
 
A concorrência, porém, não significa ausência de vendas. A loja mantém uma clientela regular durante todo o ano e encontrou nas redes sociais uma forma de ampliar o alcance dos produtos. O comerciante também mantém um e-commerce e passou a utilizar o TikTok como ferramenta de divulgação, em uma estratégia que aproximou a empresa de consumidores mais jovens. A presença digital ganhou força especialmente após a enchente de 2024, quando a estrutura anterior do negócio foi destruída.
 
Segundo o comerciante, a empresa teve perdas expressivas e precisou se reconstruir. A partir daquele momento, sua irmã Graziela Groff e a sobrinha Mariana Groff passaram a atuar de forma mais intensa na produção de imagens e conteúdos para as redes sociais, criando uma nova frente comercial para a empresa. O resultado foi a formação de uma relação mais direta com consumidores que, muitas vezes, chegam ao estabelecimento procurando produtos que conheceram nas redes.
 
“Virei influencer. As pessoas me param na rua para pedir uma foto”, diz, Groff Júnior.
 
Do lado de dentro dos portões do Harmonia, a Top Cuias marca presença há quatro anos com um estande focado no consumo do chimarrão.
 
“Com certeza setembro é mês com maior venda pelas festas e também pelo foco da mídia no acampamento”, afirma o proprietário da empresa Adriano Gregory.

Adriano Top Cuias - Acampamento Farroupilha 2026 TÂNIA MEINERZ/JC 
 
Segundo o comerciante, durante o período, ocorre um incremento de 50% nas vendas de acessórios para chimarrão, como cuias, bombas, mateiras, térmicas, enfeites de chimarrão, bombas de aço inox e uma variedade de erva-mate gaúcha, uruguaia e argentina.

“Estamos com dois lançamentos na feira: o Lumi Chima, uma luzinha de led que encaixa na bomba e ilumina o mate à noite, e a bomba de aço inox com 2 mil furos”, conta Gregory.


Adriano Top Cuias - Acampamento Farroupilha 2026 TÂNIA MEINERZ/JC

CONSUMO FARROUPILHA

  • 89% dos lojistas já registram procura por artigos gauchescos, antes do início da Semana Farroupilha.
  • +5,6 pontos percentuais é o avanço em relação ao ano passado.
  • R$ 362,50 é o tíquete médio esperado para este ano.
  • +11,5% é a alta do tíquete médio em relação a 2025.
  • 44,4% dos lojistas percebem movimento maior nas vendas do que no ano passado.
  • 66,7% apontam a bombacha entre os produtos mais vendidos.
  • 33,3% citam a pilcha infantil, que aparece pela primeira vez na pesquisa.
  • 44,4% apontam alpargatas entre os itens de maior procura.
  • 33,3% citam camisas, lenços, chapéus e boinas.
  • 22,2% registram procura por erva-mate, chás, cuias e bombas.
  • 22,2% citam o vestido de prenda entre os produtos procurados.
  • 66,7% dos comerciantes esperam aumento das vendas até o fim das festividades.
Fonte: pesquisa do Sindilojas
 
Fonte! Chasque (post) de Ana Esteves, publicado no Jornal do Comércio do Rio Grande do Sul, no dia 18 de setembro de 2026: https://www.jornaldocomercio.com/especiais/semana-farroupilha/2026/09/1263239-tradicao-gaucha-aquece-comercio-nao-so-em-setembro-mas-no-ano-todo.html  

terça-feira, 24 de março de 2026

O que o wi-fi afasta, o chimarrão aproxima

Imagem criada com auxílio de IA para fins culturais  (ilustrativa)

No coração do pampa gaúcho, onde o horizonte parece não ter fim e o vento carrega histórias antigas, o chimarrão não é apenas uma bebida — é um ritual, uma linguagem silenciosa que une almas. Diferente das conexões digitais, rápidas e superficiais, o mate exige tempo, presença e respeito. Ele não vibra no bolso, mas pulsa na roda. Ele não notifica, mas convida. E é nesse convite que mora a essência mais profunda da cultura do Rio Grande do Sul.
 
O gaúcho, desde os tempos das estâncias primitivas, aprendeu que viver não é correr, mas compartilhar. Em meio às lidas campeiras, ao amanhecer frio ou ao entardecer dourado, sempre houve espaço para uma roda de chimarrão. Ali se trocavam causos, ensinamentos, silêncios e olhares que diziam mais do que qualquer palavra. O mate nunca foi individual — ele é coletivo por natureza, quase um símbolo físico da convivência.
 
Enquanto o mundo moderno nos empurra para telas e distâncias invisíveis, o chimarrão resiste como um ato de resistência cultural. Ele obriga o sujeito a parar, a olhar nos olhos, a ouvir de verdade. Não existe “modo silencioso” numa roda de mate — existe presença. E presença, hoje, é algo raro e precioso.
 
A imagem desses velhos gaúchos pilchados, sentados sob uma figueira centenária, carrega mais do que estética: carrega memória. Cada ruga no rosto daqueles homens é uma linha da história do pampa. Cada silêncio compartilhado é mais eloquente do que mil mensagens digitadas. Ali não há pressa, não há distração — há pertencimento.
 
A figueira, árvore simbólica e resistente, representa o tempo. Assim como ela, o gaúcho também cria raízes profundas. E é sob essa sombra que gerações se encontram, que o passado conversa com o presente. O chimarrão passa de mão em mão como se fosse um fio invisível costurando histórias.
O Wi-Fi conecta máquinas. O chimarrão conecta pessoas.
 
A tecnologia trouxe avanços inegáveis, mas também nos afastou daquilo que nos torna humanos: o convívio. Quantas vezes estamos próximos fisicamente, mas distantes emocionalmente? O mate quebra essa barreira. Ele exige um círculo, uma ordem, um respeito. Ele cria uma pausa no tempo.
 
Na cultura gaúcha, recusar um chimarrão pode ser visto como um gesto de distanciamento. Aceitar é aceitar também a companhia, o momento, a troca. É um pacto silencioso de convivência. E isso tem um valor imenso numa sociedade cada vez mais individualista.
 
O ato de cevar o mate é quase um ritual sagrado. A água na temperatura certa, a erva bem acomodada, a bomba posicionada com cuidado. Nada é por acaso. Tudo carrega tradição. Tudo carrega história. Tudo carrega identidade.
 
O gaúcho não toma chimarrão apenas para matar a sede. Ele toma para alimentar a alma.
 
E enquanto o Wi-Fi promete conexão instantânea com o mundo, o chimarrão oferece algo muito mais raro: conexão profunda com quem está ao teu lado. Ele não tem senha, não precisa de sinal, não depende de bateria. Ele depende apenas de vontade — vontade de estar junto.
 
Nos campos do Rio Grande do Sul, onde o tempo corre diferente, o mate ainda reina como símbolo de união. Não importa a idade, a classe social ou a origem — na roda de chimarrão, todos são iguais. Todos esperam sua vez. Todos compartilham do mesmo amargo.
 
Esse amargo, aliás, é também simbólico. Ele representa a vida como ela é: não adoçada artificialmente, mas verdadeira. E talvez seja isso que torna o chimarrão tão especial — ele não disfarça, ele revela.
 
Ao contrário das redes sociais, onde muitas vezes mostramos apenas o que queremos que vejam, na roda de mate não há filtros. Há verdade. Há simplicidade. Há humanidade.
 
E é por isso que, mesmo com toda modernidade, o chimarrão nunca perdeu seu espaço. Porque ele não é moda. Ele é raiz.
 
Os velhos gaúchos sabem disso. Eles carregam essa sabedoria no olhar tranquilo, na postura firme, na forma como respeitam o tempo das coisas. Eles não têm pressa porque entendem que o mais importante não é chegar — é compartilhar o caminho.
 
E talvez seja essa a maior lição que o chimarrão nos dá.
 
Num mundo acelerado, ele nos ensina a desacelerar. Num mundo barulhento, ele nos ensina a escutar. Num mundo conectado digitalmente, ele nos reconecta humanamente.
 
O Wi-Fi pode cair. O sinal pode falhar. A bateria pode acabar.
 
Mas o chimarrão… esse permanece.
 
Ele atravessa gerações, resiste ao tempo e continua sendo passado de mão em mão, como um legado vivo da cultura gaúcha. Ele não precisa de atualização — porque já nasceu completo.
 
E enquanto houver um gaúcho disposto a compartilhar um mate, haverá também esperança de manter viva essa tradição.
 
Porque no fim das contas, o que realmente importa não é quantas conexões temos…
Mas quantas são verdadeiras.
 
E pra ti, o chimarrão é mais que bebida? Conta aqui tua história com o chimarrão.
 
Fonte! Sítio Facebook (que recomendo) Bairrismo Gaúcho: https://www.facebook.com/profile.php?id=61556278568635

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Tradicionalismo lembra a história e movimenta a economia no RS

Acampamento Farroupilha é somente um dos inúmeros eventos que impulsionam os negócios relacionados ao tradicionalismo no Estado / TÂNIA MEINERZ/JC

A tradição gaúcha, marcada por elementos como o chimarrão, a pilcha, o Cavalo Crioulo e o turismo histórico, vai muito além da preservação cultural: ela movimenta a economia do Rio Grande do Sul e reforça a identidade de um povo que se orgulha de suas origens e que, em 2025, comemora os 190 anos da Revolução Farroupilha. O tradicionalismo, organizado por meio dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), se tornou um dos pilares não só do folclore regional, mas também de um setor que gera emprego e renda, fomenta o turismo e impulsiona a produção local.
 
Um estudo realizado pela Feevale, em parceria com o Governo do Estado, revelou que o tradicionalismo movimentou, apenas em 2023, R$ 4,5 bilhões, em diferentes setores e manifestações culturais, representando uma força econômica relevante no Estado, com 0,70% de participação no Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho. “Atividades ligadas ao tradicionalismo, como festas, danças, gastronomia e artesanato, consumo de erva-mate, de churrasco, os rodeios, a criação do Cavalo Crioulo, a moda, têm um impacto real no desenvolvimento econômico regional. Isso sugere que o apoio a essas atividades pode resultar em benefícios econômicos sustentáveis a longo prazo”, afirma o coordenador do estudo, economista e professor da Feevale, José Antônio Ribeiro de Moura. Entre as atividades vinculadas ao tradicionalismo que mais movimentaram a economia, conforme a pesquisa, estão rodeios (R$ 2 bilhões), festas (R$ 613,4 milhões), música (R$ 220 milhões), Cavalo Crioulo (R$ 1 bilhão), radiodifusão (R$ 2,3 milhões), projetos culturais (R$ 65,8 milhões), erva-mate (R$ 396 milhões), cutelaria (R$ 96 milhões) e churrasco (R$ 106,5 milhões). 
 
O professor chama a atenção para a contribuição dos rodeios e do cavalo crioulo, assim como das festas campeiras, para o crescimento da economia gaúcha. Somente em 2023, foram realizados 3.264 rodeios, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. “São 3,2 mil festas por ano, uma média impressionante de mais de 60 a cada fim de semana. Dessas, 9% são grandes eventos; 48%, médios; e 43%, pequenos, os quais geraram, somente com inscrições, R$ 980 milhões. Além disso, o investimento em rodeios, festas campeiras e torneios de tiro de laço foi de cerca de R$ 1,3 bilhão, totalizando um consumo de mais de R$ 2 bilhões”, detalhou.
 
Para Moura, a cultura do Rio Grande do Sul é rica e proporciona o desenvolvimento do Estado, além de mensurar a contribuição do segmento e o potencial de consumo para o PIB, de modo a contribuir para que as entidades tenham informações sobre a movimentação financeira de suas atividades, que podem auxiliar na captação de recursos, sejam públicos ou privados, para seus eventos e projetos. O estudo foi descontinuado em 2025, em função das enchentes que abalaram, de forma excepcional, os dados, com queda de 22% nos eventos como as festas campeiras, apenas para citar um exemplo. “Temos a intenção de reeditá-lo e ampliar o escopo, pois acreditamos que a influência do tradicionalismo na economia ultrapassa 1% do PIB. A dificuldade de mensurar objetivamente o impacto econômico da cadeia produtiva, tendo em vista o alto índice de informalidade (as estatísticas econômicas são frágeis, não captam o informal nem desdobram os dados por unidade da federação) e a incorporação dos dados por outros setores”, avalia Moura. 
 
Ao que tudo indica, os reflexos da enchente ficaram no passado, e a recuperação segue em franca expansão. Prova disso foi a 48ª Expointer que recebeu mais de 1 milhão de visitantes, o maior público da história do evento, e movimentou mais de R$ 4,4 bilhões em negócios. O impacto positivo da feira também se refletiu na economia local. Apenas o comércio instalado no Parque registrou faturamento superior a R$ 15,8 milhões, segundo levantamento da prefeitura de Esteio. Além disso, a taxa de ocupação hoteleira da região chegou a 83%. “O Estado do Rio Grande do Sul apresenta grande potencial de crescimento de seus produtos tradicionais, proporcionando desenvolvimento regional, uma vez que a maioria dos gaúchos continua bastante próximos às tradições, que vão além do churrasco, do chimarrão e das vestimentas, incluindo um senso de pertencimento”, acrescenta Moura.
 
O tradicionalismo no Rio Grande do Sul é rico e tem personalidade própria: ganha destaque especial no mês de setembro, principalmente por conta das comemorações da Semana Farroupilha, e a vida no campo e as tradições gaúchas são temas muito valorizados. Quanto o tradicionalismo movimenta anualmente no Estado, dá a capacidade, segundo o economista da Feevale, de planejar melhor as políticas públicas para o setor, além de buscar incentivos e fomento para essa cadeia produtiva que gera desenvolvimento e renda em cada município gaúcho. “O estudo contempla diversos benefícios e serve de base para políticas públicas de fomento às tradições, sendo um setor econômico e cultural extremamente importante, ligado à nossa identidade e ao nosso desenvolvimento. Como um gestor público vai propor uma política e dirigir recursos, transportar para o turismo, por exemplo”, diz Moura.
 
Para ele, discutir a relevância da tradição é fundamental para refletir sobre a relevância de manter práticas tradicionais em um cenário em que os modismos podem oferecer vantagens financeiras imediatas, especialmente quando a promessa de lucro fácil é irresistível. O estudo mostrou que o tradicionalismo une as pessoas em torno de interesses comuns, fortalecendo laços comunitários, condição vital para a resiliência das tradições, pois uma comunidade coesa é mais capaz de preservar e transmitir sua herança cultural. “Cabe destacar o grande interesse dos tradicionalistas em participar do estudo, devido à importância para novos projetos, abrir novos parceiros e trazer investimentos para o movimento”, acrescenta o estudioso.
 
O estudo foi coordenado pela Universidade Feevale, em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedec), e contou com a participação das pastas do Turismo (Setur), da Cultura (Sedac) e da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).
 
Essa foi a primeira pesquisa mostrando o tradicionalismo como um setor produtivo e que se dedicou ao mapeamento de eventos, como rodeios e festas, de itens culturais, como pilchas e alimentos. O estudo ocorreu de julho de 2023 a abril de 2024, com nove eixos categorizados e mensurados. O método de trabalho incluiu formulação de hipóteses, análise dos segmentos do tradicionalismo e definição de coleta de dados, entre outros instrumentos.
 
Fonte! Chasque (reportagem) de Ana Esteves, especial para o Jornal do Comércio de Porto Alegre (RS). Reportagem especial do dia 18 de setembro de 2025: https://www.jornaldocomercio.com/especiais/semana-farroupilha/2025/09/1218426-tradicionalismo-reforca-a-tradicao-e-movimenta-a-economia.html